Inverno, inferno e chocolate

“Não toque! não prove aquela! Não pegue naquela! Todas essas proibições têm a ver com coisas que se tornam inúteis depois de usadas. São apenas regras e ensinamentos que as pessoas inventam. De fato, essas regras parecem ser sábias, ao exigirem a adoração forçada aos anjos, a falsa humildade e um modo duro de tratar o corpo. Mas tudo isso não tem nenhum valor para controlar as paixões que levam à imoralidade“.

Apóstolo Paulo

 

Há anos atrás uma amiga assistiu novamente ao delicioso filme Chocolate dos produtores David Brown, Kit Golden e Leslie Holleran e, em seguida, me deixou o seguinte recado: Acabei de assistir ao filme Chocolate e me lembrei de você….

Lembro-me quando em 2000 ou 2001 eu sugeri aos meus companheiros de ministério que assistíssemos a esse clássico juntos. A minha intenção era provocar uma reflexão sobre a nossa espiritualidade e os seus rebotes em nossas vidas pessoais, familiares e comunitárias.

O filme conta a história da controvertida mãe solteira Vianne Rocher e da sua filha de seis anos que resolvem se mudar para uma cidade rural da França e montam uma loja de chocolates que funciona todos os dias da semana bem em frente da igreja da cidade. Embora muitos duvidassem que o negócio pudesse prosperar, aos poucos Vianne consegue conquistar os moradores que passam a desfrutar dos seus deliciosos produtos.

Binoche e Alfred Molina – O Conde de Reunaud – brilham e nos encantam com as suas performances. Quem não assistiu deve fazê-lo ainda neste inverno, e aqueles que degustaram essa verdadeira pregação de uma espiritualidade sadia, sugiro que se lambuze novamente com o lindo e profético Chocolate.

Vianne Rocher me parece uma extraordinária missionária, dirigida pelo vento do norte a cidades prisões onde existem pessoas carentes com as suas máscaras, medos, taras, violências, vícios e virtudes impostos e escondidos por uma religiosidade doentia e adoecedora. A sua igreja é a loja de chocolates e lá ela faz verdadeiros discipulados e atendimentos pastorais.

O filme chega ao seu ápice em uma mesa farta preparada em plena Paixão de Cristo para comemorar o aniversário da velha senhora Amande Voizin. Carne farta regada com muito chocolate e vinho e depois uma sobremesa de muita dança e alegria no barco do bon vivant Roux.

Os prazeres daqueles humanos provocam a inveja doida de Carolin Claimont, uma linda viúva presa ao passado e desejosa pelo despertar do amor do Conde. Os excessos daquela gente enchem de fúria o coração do Conde pudico que sem perceber inspira e incita loucuras e violências.

As imagens de alegria e festa eram impuras e ofensivas aos olhos tenebrosos de Serge Muscat. Ele começa a ouvir uma ordem subliminar de ataque nas Palavras do Conde quando diz “algo tem que ser feito”. Então, em transe odioso e típico dos loucos hipócritas religiosos, ele começa a reproduzir uma inquisição onde pessoas e coisas são consumidas pelo fogo.

O Conde de Chocolate é um líder espiritual violentador e violentado por sua espiritualidade regrada, desumana, excludente e castradora. Imaginem esse homem atuando nas novas redes sociais, imaginem esse religioso dominando essa terra de ódio onde os profetas iracundos mobilizam e fustigam os seus cães danados e ferozes a apedrejarem covardemente quem ousar ser, pensar ou fazer diferente.

Quantos lutos são eternizados por essas espiritualidades odiosas? Quantos tarados estão ateando fogo em tudo e todos por causa de uma moral religiosa? Quantos líderes bem intencionados não se transformaram em estupradores espirituais em nome de Deus e da sua fé?

Mas no fim do filme há algumas conversões às avessas.

O Conde De Reynaud, após ensaiar mais um sermão com o padreco marionete, olha pela janela e vê Caroline como nova convertida na alegria com o característico primeiro amor olhando os chocolates na vitrine da igreja da pastora Vianne.

De Reynaud corre para o altar e diante do Cristo se desespera e em seguida e entra na loja pela janela, como o salteador, salteadores nunca entram pelas portas, lembram-se? Crente em estar fazendo a obra de Deus, ele vai até a vitrine e começa a destruir tudo como se estivesse exorcizando o lugar e fazendo uma limpeza espiritual.

E nessa sua fúria – para si santa – um pedacinho de chocolate cai em seus lábios.

Na cena só faltou o tradicional hino Eu Venho Como Estou como fundo musical. Era a conversão do Conde e ele nem precisou levantar a mão e se aproximar do altar, pois não havia apelos ou apelações.

Em seguida ele se lambuza no chocolate e, entre prazer, culpa, riso e muito choro, adormece na vitrine empanturrado e quebrando o seu tão precioso e custoso propósito espiritual de 40 dias de jejuns e orações.

Diga-se de passagem, a vitrine é o melhor lugar para essas figuras patéticas.

Mas o padre, logo cedo o vê e com a ajuda da missionária chocolateira, eles o preservam tirando-o da vitrine e afirmando que ninguém saberia do ocorrido. Enquanto Vianne dá ao Conde um antiácido para curar-lhe a ressaca, ela lhe garante: “Beba, isso lhe fará bem. E fique tranquilo, não contarei nada a ninguém”.

E naquele domingo de páscoa o Conde ressuscitou de sua religiosidade morta e esteve na igreja como nunca esteve. O Padre também se converteu e pregou um sermão tocante. Não foi o seu mais eloquente sermão, mas certamente o mais humano. Preferiu falar da humanidade de Deus e afirmou que bondade cristã não exclui nada que nós merecemos e inclui todos que achamos não merecer nada.

Aquela cidade é visitada por uma suavidade libertadora e uma metanoia coletiva e, na ultima cena, a estátua do seu fundador parece sorrir com uma bexiga vermelha pendurada ao lado.

Em tempos de tanta truculência e intolerância, nós precisamos assistir filmes que nos lembre o quanto as nossas frágeis e sensíveis vidas não podem prescindir a doce cobertura da maravilhosa Graça de Jesus de Nazaré.

 

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