Reino Dividido

Todo reino dividido contra si mesmo será arruinado,

e toda cidade ou casa dividida contra si mesma não subsistirá.

Jesus de Nazaré

Jesus de Nazaré foi chamado de beberrão, cachaceiro mesmo, amigo de prostitutas e publicanos. E como se não bastasse, os escribas que eram conhecidos pelo grande zelo e defesa da verdade terminaram diagnosticando o filho do carpinteiro como um pau-mandado de Belzebu, o príncipe dos demônios.

Após o ultimato dos donos das letras sagradas, o Mestre chamou os seus discípulos para uma conversa mais reservada e ensinou que a blasfêmia é a grande tentação e risco que os extremosos e ciosos da verdade divina correm. Sim, eles estão muito mais próximos da blasfêmia contra o Espirito Santo – do pecado sem perdão – do que os seus condenados às novas inquisições por seus rebuscados e oficiais Autos-de-Fé. O Cristo em papo direto e reto desmonta o fraco argumento dizendo: Se Satanás expulsa Satanás, está contra si mesmo. Como, então, subsistirá seu reino?

Há um fogo amigo traidor, diferente daquele trágico e acidental, que por erro de cálculo, um ataque ou bombardeio atinge as próprias tropas ou as tropas aliadas.

Nem o diabo pode com a manobra do fogo amigo desleal e essa manobra – ou algo parecido com ela – se aplica somente em algumas táticas de guerra.

Uma das velhas estratégias chinesas é a da “A ameixeira que morre no lugar do Pessegueiro”. Os sábios chineses ensinam que às vezes pode ser necessário sacrificar algumas batalhas para se atingir o objetivo final de vencer a guerra.

Mas isso não tem nada a ver com esse tal de fogo amigo. Às favas com esta conversa esdrúxula, pois fogo queima e deforma; e pilhagem é estratégia de inimigo cruel e nunca de alguém que se diz companheiro, camarada, colega ou irmão. Definitivamente, quem argumenta lançando chamas não busca diálogo, quiçá aprendizado mútuo.

No caso da estratégia milenar, ela só é usada quando o inimigo está levando vantagem. Grandes e combinados sacrifícios são usados para se chegar à vitória. Um triunfo que deve ser de todos e nunca só de uma facção ou de um grupo dono da verdadeira e última palavra.

Em outro by the book das guerras e guerrilhas, o príncipe alerta: “Quem é vencedor não quer amigos suspeitos que não auxiliem nas adversidades; quem perde não te aceitará porque não quiseste de armas na mão, correr o mesmo risco”. A neutralidade não é permitida para quem já está alistado para a guerra e se diz companheiro. Em alguns momentos não há choro que justifique ou explique o vergonhoso “ficar encima do muro”.

Shakespeare em Tróilo e Créssida apresenta um diálogo interessantíssimo entre Tersites e Margarelonte quando um deles está abandonando o campo de batalha.

Margarelonte: Volta-te, escravo e combate.

Tersites: Quem és tu?

Margarelonte: Um filho bastardo de Príamo.

Tersites: Eu também sou bastardo, gosto de bastardos.

Sou bastardo por nascimento,

bastardo pela nutrição, bastardo nas ideias, bastardo no valor, ilegítimo em tudo.

Um urso não morde outro; por que há de fazê-lo um bastardo?

Toma cuidado; a batalha é nefasta para nós:

bater-se um filho de prostituta por causa de outra prostituta,

é chamar sobre si a condenação eterna.

Adeus, bastardo!

Margarelonte: Que o diabo te leve, covarde!

Penso que o fogo amigo e a neutralidade estratégica é que são responsáveis por alimentar as nossas fogueiras de vaidades, inclusive as novas com os seus neófitos gravetos. Os nossos reinóis e arraiais reformados cheio de guerras intestinais e messianismos caquéticos estão cada vez mais irreconciliáveis e vaidosos.

Sun Tzu apresenta vinte defeitos do General potencialmente derrotado. São defeitos comuns e importantes para a atenção dos comandantes. Escolhi somente as quatro primeiras falhas: Ele é incapaz, mas se acredita capaz, arrogante, ganancioso por posição e por riqueza. Bastam duas dessas quatro contribuições da Arte da Guerra para que comandantes e comandados amarguem derrotas humilhantes.

Sei que a nossa luta não é contra a carne e sangue e sim contra principados e potestades, mas eu confesso que ando muito atento com a desonestidade intelectual de alguns e neutralidade estratégica de outros. Tenho dificuldades em confiar que um debate salutar aconteça com alguém que se auto intitula “ o “ contraponto. Quando o estigma de herege é publicado e o fogo amigo inquisitório é aceso não há ambiente para acolhermos o contraditório que ajuda a definir rumos seguros e engrandece debates e pessoas. Definitivamente, diante de generalizações e preconceitos obtusos é impossível dialogar e muito menos responder provocações.

O evangelista Mateus informa que haviam fariseus entre os que disseram que Jesus era possuído por Belzebu. E no capitulo 12 a reação do Mestre não é lá tão conciliatória assim:

quem não é comigo é contra mim; e quem comigo não ajunta, espalha

ou

Raça de víboras, como podeis vós dizer boas coisas, sendo maus?

Pois do que há em abundância no coração, disso fala a boca

Oro suplicando para que eu esteja sempre do Seu lado ajuntando e jamais espalhando.

Oro para que o Senhor me livre dos venenos das velhas e novas áspides e que as boas árvores continuem dando bons frutos e por eles sendo conhecidas.

Oro e luto pela unidade e comunhão dos homens bons que tiram coisas boas do bom tesouro dos seus corações.

Oro e lavoro para que nenhum apologeta ávido por carimbar detratores venha interromper o nosso árduo e feliz trabalho na lavoura do Reino de Deus. Um Reino que não pode ser dividido.

Oro e choro para que todos os argumentos bélicos sejam transformados em enxadas e pás na lavoura do Reino de Deus. Uma lavoura que está pronta para dar trabalho e alimento ao mundo todo, sem ninguém ficar de fora.

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