A faxina

Há anos atrás nós aproveitamos um feriado para fazer uma limpeza geral em casa.

Impressionante como guardamos e perdemos coisas, algumas que poderiam ser perdidas de vez e outras nunca. Enquanto vamos limpando e organizando, novos espaços onde coisas importantes ou não se instalarão começam a aparecer por toda a parte.

Para evitarmos ciclos viciosos e indesejáveis, o ideal é que a arrumação seja acompanhada com um plano de mudança de hábitos e rotinas da turma da casa, pois a melhor faxina é feita pelos faxineiros que vivem na casa.

Enquanto eu misturava as faxinas e limpezas dos interiores da casa e do meu coração e memórias, eu lembrei com asco de outras faxinas que insistem em se repetir em tempos de avivamentos conservadores e fundamentalistas. Tenho horror aos fanatismos devastadores e malignos que em nome de Deus “purificam” bruxas e hereges. Como esquecer dos casos extremos das varreduras xenofóbicas que terminaram manchando a história da humanidade com “limpezas étnicas” como as de Ruanda e da ex-Iugoslávia?

Esse é um tipo de faxina do mal que deve ser evitada, denunciada e impedida. Urge não descuidarmos jamais dos faxineiros cínicos e hipócritas, gente suja e doente que se acha a Vassoura de Deus, da Família, da moral, da ética e dos bons costumes.

Anselm Grün ao falar sobre puritanismo ele diz: “Nos EUA, muitas vezes se usa essa palavra para cristãos que demonizam a sexualidade, mas nem sempre se ocupam dela, constantemente esquadrinhando a vida dos outros, para saber como é a vida sexual destes. (…) As pessoas recalcam a impureza do seu próprio coração para projetá-la nos outros e combatê-los com métodos nada puros”.

Aprendi com Jesus de Nazaré que é pura ilusão achar que nos purificaremos completamente aqui na terra e creio também que qualquer compreensão diferente dessa pode nos transformar em pessoas que mais fazem mal do que bem.

Que Deus nos livre da apologia à sujeira e, principalmente, dos faxineiros que não olham as suas calçadas, quartos, gavetas e agendas repletos de sujidades e esqueletos.

Pessoas assim são incapazes de compreender que a melhor faxina é aquela que não confunde pessoas com sujeira, aquela que imita o carinho de uma mamãe que limpa as dobrinhas dos restinhos das grandes obras de seu bebe em um banho que ao final, a bacia, a água suja e o bebe recebem destinos diferentes.

Limpeza boa tem mais a ver com encontrar e reencontrar coisas e organizá-las em algum lugar para que possamos saber que estão ali caso precisemos delas um dia.

Não é nada agradável guardarmos atestados de óbitos, boletins de ocorrência e exames médicos que revelam alguma enfermidade grave. Dependendo da ausência querida e sentida, certidões de nascimento e casamento provocam a mesma dor, cuidemos para que essas caixas, gavetas ou pastas que guardam as lembranças de nossas mortes, perdas e dores não se transformem em altares ou calabouços de veneração ou reclusão de culpas e culpados em peregrinações recorrentes e igualmente doentias.

Todavia, nós sabemos da necessidade que temos de algumas arrumações em nossas vidas, uma faxina diferente, difícil e, em alguns casos, bem dolorosa.

A faxina eficaz deve sempre começar em quem faxina.

Há tranqueiras inúteis que ainda guardamos em casa e outras, que mesmo não servindo pra nada e só atrapalhe, a gente insiste em não se desfazer.

Apegamo-nos a tanta coisa inútil e destoante e o negócio é tão sério que chega um momento em que parece que a tal da coisa é que se apega a gente e não conseguimos mais viver sem aquilo que ao tempo vai se perpetuando e cauterizando as nossas vidas.

Grün também diz que: “Limpeza não significa só lavar o que está sujo, mas também alijar cargas inúteis. Desfazer-se de tudo o que não deixa minha alma respirar.”

Portanto, livremo-nos dos entulhos que se acumulam em nossas vidas e impedem os nossos movimentos, respirações e visões puras e claras.

Isso compromete acessibilidades e distorce percepções em nossos relacionamentos com Deus, conosco e com os outros.

Embora não se faça rodo dia, uma grande faxina pode demorar dias, o que podemos fazer diariamente – só por hoje e só por agora – é evitar que a sujeira se acumule a ponto de nos transformarmos em mortos-vivos , em mais um entulho acumulado de uma existência bloqueada e sem espaços para seguirmos vivendo.

 

Portanto, deixemos de lado tudo o que nos atrapalha e o pecado que se agarra firmemente em nós e continuemos a correr, sem desanimar, a corrida marcada para nós.

[ Hebreus 12:1 ]

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