Feliz Dia do Sparring

Naquela mesa tá faltando ele

E a saudade dele tá doendo em mim

Naquela mesa tá faltando ele

E a saudade dele tá doendo em mim

[ Nelson Gonçalves ]

Hoje eu desejei tomar um conhaque com o meu pai. Nós tomávamos juntos a bebida proibida que ficava escondida debaixo de um tanque na área de serviço lá de casa. Bebidas alcóolicas eram proibidas dentro da cozinha da Dona Carmélia.

O conhaque era horrível mas a alegria dele em me ver e poder jogar conversa fora me fez chorar de saudades. Sou capaz de ouvir a risada dele acompanhada da tosse seca e emocionada enquanto reposicionava os óculos e perguntava: Levizinho, como estão as coisas?

O Seu Zézinho foi o sparring que eu mais bati. Graças a Deus eu tive a oportunidade de lhe dizer o quanto eu senti muito por mais ter batido do que ouvido e papeado com ele.

Ele também foi a minha primeira vítima do meu lado apologeta inquisitor imbecil. Eu era novinho, tempos onde a minha cabeça limitada por legalismos e fundamentalismos não conseguia suportar o fato de que meu pai poderia citar um versículo incompleto de um outro pecador reconhecido : Bem-aventurado o homem a quem o Senhor não imputa maldade…

Todo pai deve saber ser sparring dos seus filhos e filhas.

Os melhores treinos para as lutas oficiais devem acontecer no “ringue do lar”. Um espaço onde o amor firme – jamais violento – prepara lutadores do amor e da paz na defesa da dignidade das pessoas e na construção de uma cultura de reconciliação que comece em casa. Amar e sofrer sem vitimismos e choramingos é o que se espera daqueles que formam ovelhas corajosas para enfrentarem os lobos covardes na vida como ela é.

Aos novos lutadores eu digo, treinem firme com os seus pais evitando lesões, não deixem de curti-los antes e depois dos treinos e evitem transformar treinos em batalhas e guerras intermináveis, pois os nossos velhos não são adversários e o objetivo do treino vai muito além do simplesmente ganhar.

Sempre que possível e não somente em datas comemorativas, observe o envelhecer deles e procure aprender algo, pois por mais que isso lhe possa incomodar, eles nos ensinam muito com os seus erros, reincidências e cosmovisões. Interrompa-os menos quando estiverem falando, peça que eles contem as suas histórias, preste a atenção nos olhos deles e em como eles olham o mundo, as pessoas e as coisas. Nelson Rodrigues soube registrar bem esses meus conselhos com um inesquecível poema:

Naquela mesa ele sentava sempre

E me dizia sempre o que é viver melhor

Naquela mesa ele contava histórias

Que hoje na memória eu guardo e sei de cor

Naquela mesa ele juntava gente

E contava contente o que fez de manhã

E nos seus olhos era tanto brilho

Que mais que seu filho

Eu fiquei seu fã

Respeito e admiração entre um pai e um filho nos treinamentos para as lutas é uma bela e necessária metáfora que eu desejo usar enquanto preparo os meus garotos. Oro para que eu entenda quão grande é o meu privilégio em poder treina-los forte para a vida sem lhes impor os meus sonhos ou versões de felicidade.

Quero estar presente – sem desculpas – na vida dos meus filhos para que cada um descubra o seu jeito de honrar e reverenciar os seus treinadores e procure ser o melhor sparring que os seus filhos possam ter.

Tenho me reconciliado com essa parte da minha história e aos poucos uma verdade incrível vem tomando conta do meu coração: eu sei que só naquela mesa é que está faltando ele, pois muito dele está bem vivo em mim.

Feliz dia do sparring sem treinos e com muitos brindes e lembranças boas para todos e todas!

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