Um ponto de interrogação feito carne

Quando os amos poderiam chamar de “irmãos” os seus próprios escravos, e quando muitos perceberam os fatores que despersonalizavam a estes, algo tinha que mudar. A mudança exigiu tempo, mas foi realizada. E enquanto isso, o povo de Deus era um ponto de interrogação feito carne, uma vez que aqui havia gente que podia viver outro tipo de relações em meio a um sistema social determinado.

[ John Poulton, in People under pressure ]

Ser uma interrogação feito carne impede que vivamos omissos e sem se posicionar na vida como ela é com as culturas e sistemas opressores que construímos, alimentamos e canonizamos.

Há outros grupos e movimentos políticos ideológicos que também são interrogações feito carne, eles são facilmente confundidos com alguns seguidores de Jesus de Nazaré. É por essa razão que muitas comparações, estigmatizações e cobeligerâncias são toleradas e justificadas. Precisamos de muita sabedoria e paciência para transitarmos entre esses ataques e convergências sem perder o nosso espirito profético, pois o que realmente importa é seguir interrogando o que está imposto em toda cultura, ordem ou sistema que oprime, fere, abusa, traumatiza e infantiliza pessoas.

Questionar tudo e todos o tempo todo é de fato uma chatice e um erro estratégico, mas ficar “de boa” para posar de bom, elegante e leve moço diante do caos é covardia e parceria com a maldade.

Fico com Walter Brueggemann quando ensina que Jesus de Nazaré é o ápice do espirito reformador revolucionário de Moisés e da tradição profética dos profetas bíblicos do velho testamento. Seguir o Mestre e Cristo Jesus implica natural e necessariamente em ser uma permanente crítica desmanteladora de toda consciência dominante e opressora sem deixar de alimentar, nutrir e evocar uma consciência alternativa que nasce do Eu Sou o que Sou para que pessoas e comunidades surjam sinalizando agora e na terra o Governo de Deus que promove justiça, paz e prosperidade para todos e todas sem ninguém ficar de fora. Todo seguidor de Jesus de Nazaré é uma interrogação e uma exclamação, interroga toda cultura opressora e exclama a cultura libertadora da governança de Deus.

E tudo isso em amor e sem apologias à luta armada, pois como ensinou Paulo, o apóstolo, as nossas armas não são do mundo, são armas poderosas de Deus, capazes de destruir fortalezas e ideias falsas.

E tudo isso propondo uma reconciliação de classes – nunca a luta de classes – em torno da mesa da comunhão do Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo.

Não se iluda, se você quer seguir a Jesus de Nazaré e quer viver pra valer o seu Evangelho, prepare-se, algo necessariamente terá que mudar em sua cosmovisão, postura e relações.

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