O Brasil perdeu a imagem de bom pagador

Dia 09 de setembro, todos os jornais, revistas e programas de TV anunciaram que o Brasil foi rebaixado, não somos mais considerados bons pagadores. Nos próximos dias nos apresentarão incontáveis análises e previsões, tentando antecipar o que de fato acontecerá com a economia em 2015, 2016, 2017… 2020.

Haveria um(a) culpado(a)? Dilma, obviamente, não? Sim e não… a resposta, como tudo na vida, não é tão simples. Nos próximos parágrafos vou tentar expor alguns pontos, tentando ser o mais simples possível, defendendo o ponto de vista da equidade.

Seja nos governos dos anos 1990, ou nos governos mais recentes, a prioridade sempre foi “pagar” os investidores. Inúmeras vezes o pagamento da dívida foi priorizado em situações de crise, negligenciando serviços básicos, prejudicando a população mais empobrecida. A justificativa? Manter a estabilidade e conseguir a imagem de bom pagador para conseguir mais empréstimos/investimentos. Qual foi o resultado de tanta lealdade e compromisso? Vimos ontem…

Em um exemplo simples: sabem quando a gente leva a culpa por uma situação mesmo sem ter feito aquilo, tipo uma crise de ciúmes? Pois bem, o Brasil é agora rebaixado ao status de mal pagador mesmo depois de ter priorizado os pagamentos. Vejam só!

Haveria outra alternativa? Imagino que sim… a mais radical seria não priorizarmos os pagamentos de dívidas (que comprometem 40% de tudo que é arrecadado). Como consequência não cresceríamos quase nada (como se isso fosse importante), entretanto o governo priorizaria outras estratégias com o dinheiro que joga fora em pagamentos de juros.

E aonde chegaríamos? teríamos a imagem rebaixada a mal pagador… Vejam só! Ao priorizar as políticas sociais e alternativas menos atreladas às vontades externas, enfrentaríamos uma grande turbulência entre defensores da estabilidade (ainda detentores dos meios de comunicação de massa), mas haveria muito mais apoio dos demais 180 milhões de pessoas deste país. Não estamos acostumados com a população sendo priorizada por aqui, mas posso garantir que isso não é tão incomum mundo afora.

Por que o rebaixamento é importante e sério e uma farsa? Vai alterar de fato as condições de crescimento do país, será mais difícil conseguir dinheiro emprestado e será necessário prometer mais para conseguir menos. E por que é uma farsa? Porque se baseia em previsões, análises matemáticas aparentemente complicadas que tentam testar todos os cenários futuros, dizendo aos investidores onde é menos arriscado “investir”. Mas temos que reconhecer, se tivéssemos alguns bilhões para espalhar pelo mundo, iríamos querer que alguém fizesse uma conta bem grande nos garantindo que não perderíamos nada… E por que é sério? Porque as planilhas místicas justificam as alocações de recursos e as “medidas impopulares”, quase provando que era fundamental que a família mais empobrecida continuasse pagando a conta das “incertezas” do mercado.

E agora, como ficam os animos?

– alguns ficaram satisfeitos porque tiveram seu pagamento em dia

– alguns ficaram satisfeitos porque provaram que o governo não sabe gerenciar

– alguns ficaram satisfeitos porque provaram que podem vencer o governo no congresso

– muita gente vai achar que o caminho era fazer ainda mais o que o “mercado” queria e vai criticar a gestão atual por negligencia

Alguém vai aprender alguma coisa com isso? claro que não… continuarão apostando todas as fichas no “Mercado”, ouvindo conselhos de quem só tem interesse em fazer valer a vontade de uma dezena de pessoas que podem pagar ricas comissões pelo dinheiro bem apostado.

Alguém pode querer dizer: “essas são as regras do jogo, não tem nada de errado e eles não souberam jogar”.

Eu responderia: “não deveriam nem ter entrado nesse jogo, muito menos apostar qualquer coisa”.

==

Isso tem alguma relação com a Jornada dos Seguidores de Jesus de Nazaré? Se a igreja se limita a falar de pecado pessoal, não tem nenhuma relação. Agora se queremos de fato denunciar injustiças, devemos começar por rever toda ação onde um grupo sempre faz prevalecer sua vontade em detrimento de outro. Seria um jogo se todos estivessem escolhido jogar, então não se trata de um jogo ou de disputa, se trata exploração e injustiça.

Quando os benefícios são privatizados e os fracassos socializados, seja lá qual for o regime político e qualquer visão politica ou econômica, isso não deveria ser tolerado pelos proponentes e sinalizadores do Reino de Deus.

 

 

Leandro de Carvalho.

Professor de Economia, mestre em Economia Política.

Atualmente é doutorando na Universidade de Brasília e também da Université Paris XIII. Faz pesquisa sobre desenvolvimento social e sobre políticas públicas de cultura e de difusão da informação.

Recent Posts
Contact Us

We're not around right now. But you can send us an email and we'll get back to you, asap.

Not readable? Change text. captcha txt

Start typing and press Enter to search