Casa dos Espelhos: posicionamentos, projeções e simulações da vida

Chaplin - Espelhos
Por Leandro Carvalho
(Texto para Discussão, 1)
Dentro do Museo Nazionale del Cinema, em Torino, foram instaladas várias salas para explicar o fenômeno da refração de luz e a função das lentes e espelhos na composição da imagem que nossos olhos irão ver. Mesmo sem saber que visitaria o museu, alguns dias antes eu estava pensando sobre espelhos e formação de (nossa) imagem e, talvez por isso, quando entrei nessa sala ficou fixado em minha mente a figura de uma Casa dos Espelhos.
Todo mundo já deve ter visto uma casa dos espelhos. É aquele lugar super divertido nos parques em que as pessoas gastam horas vendo como seriam seus corpos mais altos, mais baixos, mais gordos, mais magros, mais fortes; um susto, uma risada, uma admiração já que, dependendo do posicionamento da pessoa e do espelho, praticamente se vê outra pessoa. Ela é também o local preferido para os vilões ludibriarem os mocinhos nos filmes, situação em que a imagem projetada pela reflexão de vários espelhos faz o vilão estar onde não está e surpreender o mocinho pelas costas num golpe quase final.
Até pouco tempo não dava pra levar a Casa dos Espelhos para nossa casa, nem apresentar a projeção que vimos lá como nosso cartão de visitas. Até pouco tempo era ridículo até sugerir uma coisa dessas. Mas, contudo, pensemos de novo: que lugar guarda as mesmas características das casas dos espelhos mesmo sem possuir um espelho sequer? Onde nossa imagem está constantemente refletida depois de horas de ajustes, de posicionamentos, de escolhas para as luzes e as cores e depois do apagamento das “imperfeições”?
Muito possivelmente alguém pode achar que me inquieta o uso excessivo de photoshop, de fontes de luz indireta ou de milhares de fotos para escolher a melhor focada. Isso é até um problema, mas não acredito ser o maior. Na minha visão, o que as recentes Casas dos Espelho mais provocam é a projeção de algo que não está ali.
As pessoas aprenderam a combinar os ângulos dos espelhos de forma a estar do outro lado da sala, em closes perfeitos sem que o expectador tenha a menor ideia de onde a pessoa projetada verdadeiramente está. Imagino que a curva de aprendizado seja difícil, mas percebo que em pouco tempo se torna tão habitual que a projeção se confunde com a imagem concreta (real é uma palavra difícil para usar aqui).
Se ninguém quer se expor, se as pessoas querem estar cercadas de outras, se o espelhos refletidos provocam sensação de felicidade, por que usar a Casa dos Espelhos seria ruim? Pensando bem, não se trata de classificar como bom ou ruim e sim de pensar por quanto tempo a imagem refletida consegue esconder o que envergonha, o que precisa ser secreto e o quanto isso fere quem está querendo ser o que não é e expor o que não possuí (não se trata de riqueza, mas de energia, força, alegria, felicidades constantes, desenvoltura, desprendimento etc).
Um espelho bem posicionado nos aproxima de uma imagem construída em nossa cabeça como perfeita. E não é muito complicado fazer isso, basta estar familiarizado com algumas ferramentas textuais e impor sentidos controversos, sabendo que as pessoas irão interpretar o que nos desejamos, nos resguardando a possibilidade de retrucar com um coloquial “não foi isso que eu disse, você que entendeu assim”.
Um exemplo: recentemente o historiador e professor da Unicamp, Leandro Karnal, deu entrevista no programa Roda Viva e essa entrevista foi bastante repercutida. Eu, por ser admirador de suas ideias e construções sobre o mundo, poderia apenas ler e admirar um pouco mais do que ouvi e do que ele me fez pensar, ou, como numa Casa dos Espelhos, poderia me posicionar de forma que fique próximo do local (status) de Leandro. Não querendo ser um admirador anônimo ou secreto, construo uma apresentação que demonstra que, grosso modo, que “eu sou o tipo de pessoa que assiste e entende o que Leandro Karnal fala”. Contudo, um texto cru como este revelaria minhas intenções mais secretas de posicionamento e reflexão, então uma possibilidade seria “Hoje meu xará, Leandro Karnal, fez mais uma brilhante palestra no programa Roda Viva. Mais pessoas deviam conhecer esse historiador e também seguir suas ideias. O mundo seria muito melhor.” As marcas de texto “meu xará”, “mais pessoas” e “também” não falam de Karnal, mas sobre mim neste exemplo. “Meu xará” é uma tentativa de associar o nome famoso diretamente ao meu, de forma que as pessoas lembrem de mim quando forem expostas (várias vezes por dia) ao nome de Karnal. O trecho “mais pessoas” me posicionaria numa situação de autoridade, ou seja, de quem já experimentou as delícias de entender filosofia e história e agora recomenda fortemente para os outros. Aqui pode haver um mal entendido: várias pessoas realmente provaram as delícias de uma reflexão e de um pensamento mais refinado e sinceramente desejam que outras pessoas provem isso, portanto este trecho sozinho não teria condição de classificar nada, mas somado a outras marcas ficaria evidente se estamos diante de alguém que sabe do que fala ou de alguém que quer simular saber do que fala. A marca “também” me posicionaria como alguém que já segue o que ele diz e que, por isso, viveria melhor e poderia recomendar o mesmo remédio aos outros.
Agora imaginem se a luz da casa dos espelhos fosse apagada e a única forma de sermos encontrados fosse por meio do som, indicando pela voz onde estamos. Quando chegasse perto o suficiente, o que a pessoa veria de nós? Quando percebesse nossa voz os direcionando, quão longe estaríamos do local da última imagem refletida, ou seja, quantas espelhos refletidos nos separavam da primeira imagem até a imagem vista antes das luzes se apagarem?
Fiquei pensando aqui com meus botões lustrados, sofisticados e caros: “se isso é tão facilmente perceptível, porque existe essa epidemia de imagens projetadas tão distantes de seus locais de origem? ou, em outras palavras, se é visível e facilmente detectável, por que pouca gente percebe que o que nós dizemos não corresponde com o que a gente é?”.
Aqui vale a pena recorrer à fala de Karnal: “com todo mundo falando, ninguém pára para ouvir ninguém”. O que na prática é próximo de dizer que a facilidade de expressão é tão grande que vicia, embriaga, torna a vida fictícia praticamente a vida cotidiana, porém nosso cérebro não é capaz de processar as histórias e estímulos de 5000 amigos, de forma que não observamos nada atentamente e acabamos por incentivar novas construções fictícias. Nesse ciclo a imagem projetada cumpre a função que desejávamos, em nós e nos outros.
Todo mundo fala, ninguém ouve e o mundo fica cada vez mais hiper-real (usando uma conceituação de Jean Baudrillard agora e fazendo parecer que eu entendi tudo que ele disse em seus livros). Por hiper-real fica entendido a situação em que o “real” se apresenta cada vez mais inevitável, cada vez mais brilhante, como se, por exemplo, a família da propaganda de margarina fosse a única família possível e aceitável e para nos convencer disso, esse modelo de família será apresentado como perfeito inúmeras vezes, em vários ângulos, de forma que as pessoas assimilem a simulação como fato inegável da vida (muitas aspas na palavra “fato”). O que meu amigo Baudrillard diz, contudo, é que essa construção social, como esse exemplo da família perfeita (exemplo meu, não dele), não é imposta; seria, ao contrário, uma construção entre os agentes interessados na divulgação daquela imagem e entre a sociedade enxergando na adoção daquela imagem a solução para alguns de seus problemas. Ou seja, sociedade e mercado criando um ambiente em que uma simulação, depois insistentemente difundida e disseminada, ganha aspectos de real e suprime as inúmeras outras formas de construção da família.
Dito tudo isso, não nos enganemos: o negócio do Facebook, do Instagram, do Snap etc não é somente fornecer espaço. É isso e mais do que isso: eles são uma plataforma em que podemos projetar nossa imagem muito melhor do que na Casa dos Espelhos e podemos viver uma vida que não existe, mas que se baseia na bolha na qual estamos voluntariamente construindo. Em outras palavras, imagina-se um espaço aberto, plural e diversificado, mas a cada dia ele se configura como um fazendinha em que só entra o que me agrada, o que me aplaude e o que ajuda a projetar minha imagem como agradável. Para continuar a ter acesso ao “meu espaço de expressão”, aceito que vendedores batam a minha porta para oferecer o mais recente produto que vai me ajudar na apresentação como “o tipo de pessoa que faz…”, “o tipo de pessoa que é…”. Assim como na família simulada e hiper-real, na minha fazendinha posso ser agradável, elegante, culto, esportivo, descolado, bonito, sensual, tudo isso sem sair da simulação e sendo realimentado por outras pessoas que também desejam que essas imagens “colem” em suas projeções.
Teria como sair disso? Baudrillard diria que não (ele, inclusive, odiou o filme Matrix, que disseram ser inspirado em seu livro, simplesmente porque ele acredita não existir o espaço “fora da Matrix”). Eu, contrariando meu amigo e inspirador, diria que não é necessário ser tão pessimista: se é verdade que não conseguimos sair totalmente da Matrix, acredito que saber sobre a existência das simulações e dos simulacros já nos dá condição de resistir a tentação de viver uma vida em sua maior parte projetada e fictícia. Em função do grau de dependência da simulação, talvez esse exercício seja mais dolorido porque envolverá encontrar razão pra existir, sem exageros, fora da imagem projeta numa existência nua e crua.
Apesar do tom alarmante e do choque inicial, é importante diferenciar o que seria “viver uma vida em sua maior parte projetada e fictícia” da mera ação de compartilhar eventos, alegrias e gerar assunto. A diferença tênue é o mais difícil de perceber e exige muita autocritica. Para dar um exemplo prático recente: eu gosto de jazz, blues e rock, as pessoas que convivem comigo sabem disso. Até ai nada de novo. Tive a oportunidade de realizar um sonho de estar no Montreux Jazz e tirei uma foto para compartilhar essa alegria. O que eu fiz na prática? Compartilhei uma alegria com quem já me conhece de perto e projetei uma imagem para quem me conhece pouco sobre ser “o tipo de pessoa que gosta de festivais de música no segmento Jazz e Rock”. Isso se enquadra no que discutia anteriormente? Provavelmente, mas não completamente, porque as pessoas, quando me encontrarem, saberão que eu realmente gosto daquele estilo de música, então não haverá discrepância. Se a intenção fosse parecer rico, desbravador e conhecedor profundo de música, ai eu geraria frustração em quem me encontrasse depois. Pois bem, mas nesse mesmo contexto, minha cabeça chegou a me propor a tentação de construir uma foto em que eu apareceria sentado em uma mesa do Montreux Jazz, mas lendo um dos livros da tese. Por que eu faria uma coisa dessas? A intenção oculta seria mostrar para as pessoas que, mesmo eu participando do festival, não deixaria meus compromissos de lado. Qual o problema disso? Simples, não é real. Eu não estava de fato querendo estudar com música de fundo do festival e, sim, tentado a mostrar que “sou o tipo de pessoa que não pára de trabalha nem mesmo no Montreux Jazz”. E por que meu cérebro me pregaria essa peça? Talvez porque quando postei a primeira foto, comemorando, e julguei que as pessoas iriam achar que eu abandono meu trabalho. Vejam, não são construções simples. A exposição ampliada gera preocupações que antes não existiam em nossa mente: se adequar a um número muito maior de expectativas nos torna ansiosos e intensifica alguma percepção de desajuste interno. Não é pouca coisa.
Como dizia antes, é provável que não exista o “fora da Matrix” e que o simples fato de estar conectado a uma rede digital já nos transforme em seres desejosos de construir imagens melhoradas de nós mesmos. Contudo, ainda quero ser um crítico esperançoso e acreditar que podemos fazer uso da rede digital para potencializar amizades, mesmo que não sirva para aprofundá-las no segundo momento. Que o espaço possa expressar algo que somos, mas que deixe de provocar em nós o desejo de projetar o que não somos. Se não for assim, o prejuízo, nesses casos, é bem simples: ao apagar das luzes, o que sobra de real? Onde vão nos encontrar, de fato? De que forma? Isso importa?
*****
Obs 1: Lembrando que a autocritica deve começar pelos nossas qualidades e talentos. É insuportável, insuportável mesmo, se ver diante de todas as nossas simulações, cruas diante de nós, sem que os talentos e qualidades estejam também lá para balancear as coisas. Antes de deixar as simulações da redes, a recomendação é buscar os próprios potenciais, qualidades e talentos e em seguida, aos poucos, reconhecer os momentos de excesso, calibrando melhor entre o que se mostra e o que de fato existe.
Obs 2: os trechos em itálico são brincadeiras com as tentativas de projetar nossas imagens na fama e prestigio dos outros.
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