Os brasileiros e a fornalha ardente.

Por Jéssica Rezende

Jovens na fornalha

A Bíblia é um livro que também fala — e muito — sobre política. Dia desses estava lendo (em Daniel 3) a história da fornalha ardente e, para quem não está familiarizado, sem problemas. Vou contar para vocês:

Existia um rei chamado Nabucodonosor e ele construiu uma estátua de ouro — com 27 metros de altura. (Nota para quem é de humanas, como eu: fica difícil imaginar uma medida tão exata, então saiba que isso dá mais ou menos a altura de nove elefantes — um em cima do outro). Enfim, era grande pra caramba. Nosso monarca estabeleceu uma ordem para que todos adorassem essa estátua. Todos, independente de suas crenças. Ah! E aqueles que se recusassem a obedecer seriam jogados imediatamente numa fornalha. Complicado. Penso que quem não concordava com isso já estava no fogo de qualquer maneira: sigo em frente, sendo fiel ao que acredito e protesto — independente das consequências — ou finjo que não é problema meu, consciente de que estou pirateando meus valores?

Bom, três caras que ocupavam cargos elevados na província da Babilônia optaram pela primeira opção e recusaram a se prostrar diante da estátua. Sabendo que esta lei não fazia o menor sentido e não estava de acordo com o que acreditavam, eles se posicionaram contra a ordem do Estado. E, claro, como o ser humano nunca precisou de Facebook para espalhar as notícias em tempo real, a postura de protesto dos jovens chegou aos ouvidos do rei. Ele ficou bem p#to da vida e resolveu dar uma pressionada — com mais ameaças — nos três amigos. A fornalha já estava acesa.

Assim, em Daniel 3.15–18, temos: “Sadraque, Mesaque e Abede-Nego responderam: ‘Sua ameaça não nos assusta. Se nos jogar na fornalha, o Deus a quem servimos pode nos salvar não só da fornalha como de qualquer outra coisa. E, mesmo que ele não o faça, não importa, ó rei. Ainda assim não vamos servir aos seus deuses nem adorar a estátua de ouro que mandou erguer”.

Nabucodonosor, então, quase explodindo de tanta raiva, ordenou à sua patota que aquecesse a fornalha sete vezes mais. (Nota para quem é de humanas, como eu: realmente não faço ideia de como tentar ilustrar esse número para nós, então inventem uma unidade de medida. Só saibam que o negócio era quente. Muito quente. Mas muito quente MESMO. Tão quente que os guardas que conduziram os três jovens para a fornalha morreram só de chegar perto).

No fim da história, Deus os honrou e eles não tiveram um fiozinho de cabelo queimado. Nem o cheiro de fumaça ficou na roupa que eles usavam. Parece loucura, né? Também acho. Mas, apesar desse texto falar sobre o Deus que acredito, meu foco não é no aspecto religioso — apesar de, indiretamente, acabar esbarrando nisso. O ser espiritual e o político se misturam. Não dá pra fingir que andam separados. Os dois fazem parte do organismo complexo que somos nós, os chamados serumaninhos. Eugene Peterson diz que: “Sempre há, entre nós, aqueles que se concentram na alma, enquanto outros acompanham a história geral. [o livro de] Daniel é um dos principais documentos que têm a preocupação de manter tudo unido — o pessoal e o político, o presente e o futuro, a alma e a sociedade”.

Apesar desta história ser muito antiga — ela foi escrita vários anos antes do nascimento de Cristo (não sei ao certo quando, mas esse dado não é relevante agora) — ela fala sobre o momento atual do nosso País. Sim! É isso mesmo.

Estamos vivendo — e muitos ainda estão por vir — dias complicadíssimos. Com as mudanças políticas que enfrentamos no corpo (com zero representatividade, diga-se de passagem) que decide as leis do país, a minoria rica continua com zero sofrimento, enquanto quem pertence à maioria está se lascando cada vez mais. Até aí, nada de novo debaixo do Sol.

De qualquer maneira, todos acreditamos em algo. Uns defendem que foi golpe, outros dizem que não é bem assim. Muito ódio político. Debates rasos e sem fundamento. E, seja qual for a sua opinião, acho que podemos chegar ao senso comum de que a coisa tá feia.

Mas a verdade é que todos somos oprimidos em escalas diferentes. Enquanto dormimos, os nossos direitos sociais vão sendo derrubados um a um.

O mesmo Eugene também vem dizer que “a obediência a Deus é difícil quando, por pura sobrevivência, somos encurralados e pressionados a nos adaptar a uma cultura indiferente a ele”. Nessa frase, enxergo claramente o momento político que nosso País está vivendo.

O que eu acho legal na história dos amigos e da fornalha é que, quando o rei dá um apavoro neles, os três defendem seus valores. Eles acreditam que Deus poderia — assim como fez — livrá-los da morte na fornalha mas, ao mesmo tempo, reconhecem que Ele pode escolher por não livrá-los e, MESMO ASSIM, Sadraque, Mesaque e Abede-Nego não se prostraram diante da estátua de ouro. Eles se posicionaram.

Um modo admirável de vida tem valores inegociáveis em qualquer lugar do mundo. A questão é: quais são eles?

Eu confio num Deus que pensou em um projeto para a espécie humana que garantia o apoio à familia e educação; à pesquisa científica e tecnológica; descanso, lazer, trabalho, promoção da nutrição alimentar e de todas as necessidades básicas para a sobrevivência e saúde de todos. Parece discurso de político? Pois é. A diferença é que Deus não compactua com a injustiça. E o que estamos assistindo acontecer por aqui é uma opressão atrás da outra. Poucos desfrutando de acesso total a incontáveis privilégios e muitos sofrendo, lutando para garantir o mínimo de direitos humanos — que deveria alcançar e valer para todos aqueles que se encontram nessa categoria.

E, afinal, conscientes do cenário no qual estamos inseridos, como devemos viver? Como os três amigos, que mesmo sabendo que seriam jogados para a morte em uma fornalha, se posicionaram contra o opressor. Sejam eles inspiração para nós, brasileiros, nos tempos sombrios que chegaram ao nosso país tropical.

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