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Pastor Levi aponta 1º pecado de Lula

Danilo Angrimani

Do Diário do Grande ABC ( 4 de JANEIRO de 2003 )

Eleitor declarado de Luiz Inácio Lula da Silva, o pastor Levi Correa de Araújo, presidente da 1ª Igreja Batista de Santo André, aponta o primeiro pecado cometido pelo governo que ele ajudou a escolher: durante a transição, teria sido dada prioridade “a grupos evangélicos fisiológicos”. “Gente que só quer cargo no governo.” Enquanto isso ocorria, os “evangélicos não fisiológicos” foram barrados.Levi refere-se às “igrejas emergentes”, “neopentecostais”, que “abduziram partidos políticos”. O pastor não deixou claro, mas todos os indícios apontam na direção da Igreja Universal do Reino de Deus (“a força divina”, por trás do supostamente “abduzido” PL).

Depois de abrir sua igreja para debates políticos, em uma iniciativa inédita e polêmica para muitos evangélicos, o pastor participa agora do Movimento Mardoqueu, que se propõe a ser uma espécie de consciência moral ambulante, buzinando nos ouvidos do primeiro escalão do governo Lula.

“Vamos ser essa voz, falando no ouvido da Benedita (da Silva, ministra da Assistência e Promoção Social): ‘Você não está aí à toa. Você tem responsabilidade perante a Deus, perante a sua própria consciência e ao povo’.”

Na entrevista concedida ao Diário, o pastor Levi cutuca Frei Betto (Carlos Alberto Libânio Christo), ao dizer que ele teria “subido na sandália”. “Frei Betto concedeu uma entrevista a uma revista semanal que me deixou constrangido. Senti vaidade nele.”

O pastor da 1ª Igreja Batista também comenta a suposta clonagem e o movimento raeliano. “Se essa clonagem realmente ocorreu, não há dúvida de que existiu uma grande insensibilidade ética e humanista, mas isso vai depender de uma confirmação científica séria.”

DIÁRIO – O sr. tem se destacado na região por levar a discussão política para dentro das igrejas evangélicas. O sr. criou o Fórum para Conscientização do Voto Evangélico e a Segunda Cidadã; trouxe candidatos para o debate. No caso do apoio do pastor Jesse Jackson à candidatura Lula, firmado na igreja que o sr. preside, isso se tornou um acontecimento mediático mundial. O sr. sente que algo mudou?

PASTOR LEVI CORREA DE ARAÚJO – Além das duas iniciativas que você citou, o Fórum da Cidadania também ajudou muito no debate político. Tenho de admitir que houve uma mudança na maneira de os evangélicos tratarem política no Grande ABC. Hoje, certos políticos não têm mais tanta facilidade de chegar nas igrejas e tratar um redil de ovelhas como se fosse curral eleitoral. Eles enfrentaram mais dificuldades, mas isso não significa que esses políticos evangélicos foram barrados pelas urnas. O que eu garanto é que eles tiveram de correr atrás do prejuízo. Outros enfrentaram derrotas fragorosas. Em suma, a mentalidade está mudando.

DIÁRIO – Qual é a próxima novidade que o sr. trará para o debate político?

PASTOR LEVI – Vem aí a Pastoral da Cidadania. Esse trabalho, que era feito isoladamente aqui, vai ser ampliado, de forma a se espalhar por toda a Região Metropolitana de São Paulo. Vamos discutir as questões essenciais e chegar ao Fome Zero, do novo governo Lula.

DIÁRIO – Grupos evangélicos que participaram da campanha do primeiro turno foram barrados no segundo. Por quê?

PASTOR LEVI – Houve uma certa negligência do pessoal que trabalhou na transição. Foi dada prioridade a grupos evangélicos fisiológicos, gente que só quer cargo no governo.

DIÁRIO – Quem?

PASTOR LEVI – Posso dizer que são igrejas emergentes, neopentecostais, que abduziram partidos políticos.

DIÁRIO – O sr. votou em qual candidato para a Presidência?

PASTOR LEVY – Votei no Lula. Foi um voto consciente. Eu não sou do PT, mas acho que aí entram três questões importantes: primeira, tenho o direito de não abrir meu voto; segunda, tenho o direito de expor meu voto; e terceira, não tenho direito de impor meu voto. Sempre deixei a minha igreja livre. Ela é apolítica. Nunca permiti que a igreja fosse usada para isso. Recebi vários grupos de diferentes agremiações políticas.

DIÁRIO – Mesmo assim, o Diário recebeu inúmeras cartas, estranhando que, nos debates, o sr. teria dado prioridade ao candidato Lula (PT), esquecendo do evangélico Anthony Garotinho (PSB).

PASTOR LEVI – Nada disso. Ninguém foi esquecido. Ao contrário. O sr. Anthony Garotinho foi o primeiro candidato à Presidência a ser convidado. Nós provamos que ele tinha sido o primeiro a ser chamado para debater. E ele nem respondeu ao nosso convite. Quando mostramos isso, a reação terminou.

DIÁRIO – O sr. também participa do Movimento Mardoqueu? Quem foi Mardoqueu e qual o significado desse movimento?

PASTOR LEVI – A história de Mardoqueu aparece no Livro de Ester. Ele era um profeta e uma espécie de assessor do reino. É ele quem lembra os governantes a todo momento: “Não se esqueça do povo. Você foi colocado aí com uma proposta maior, originada de Deus.” Nós, os integrantes do Movimento Mardoqueu, nos propomos a fazer o papel desse assessor e lembrar o governo da necessidade e da urgência das reformas. Vamos ser essa voz falando no ouvido da Benedita (da Silva, ministra da Assistência e Promoção Social): “Você não está aí à toa. Você tem responsabilidade perante a Deus, a sua própria consciência e ao povo.”

DIÁRIO – Quem participa desse movimento?

PASTOR LEVI – É formado por pessoas da AEVB (Aliança Evangélica Brasileira); do Sepal (Serviço de Evangelização para a América Latina); da Visão Mundial; do Fórum das Igrejas Evangélicas do Grande ABC, que tem como representante o prefeito de Rio Grande da Serra, Ramon Velasquez; e do MAC (Movimento Ativista Cristão). Há duas semanas, assinamos um documento, criando oficialmente o movimento.

DIÁRIO – Em relação especificamente a Santo André, a população começa a se mostrar indignada com o aumento de impostos e ao mesmo tempo sente-se uma certa paralisia na distribuição de benefícios sociais. O sr. pensa assim?

PASTOR LEVI – Acho que esse processo é inevitável. Eu também pago impostos e não gosto de aumento. Por isso, estou torcendo para o João ( Avamileno, prefeito de Santo André) investir muito firmemente no tripé educação, saúde e inclusão social. A oposição sofreu um fracasso horroroso. Os líderes de direita da região foram derrotados por goleada e precisam somar forças agora para bater no governo. O João (Avamileno) é católico, um bom católico, nós temos uma relação muito boa. Acredito que nos próximos três, quatro meses a população vai enxergar os benefícios básicos. Tomara que ele (Avamileno) aproveite esse aumento de impostos para provar que vai fazer o que precisa ser feito, colocando alguém com capacidade e firmeza que consiga centralizar essas três áreas fundamentais (saúde, educação e inclusão social).

DIÁRIO – Uma entrevista recente de Frei Betto causou mal-estar em algumas lideranças evangélicas. Por quê?

PASTOR LEVI – Eu tenho uma admiração profunda pelo Frei Betto, mas parece que ele subiu na sandália. Ele concedeu uma entrevista a uma revista semanal que me deixou constrangido. Senti vaidade nele. Depois de dois dias, foi entrevistado novamente e deu sua opinião sobre a escolha de Gilberto Gil. Não cabe a ele opinar sobre a escolha do presidente. (dom Marcos) Morelli (bispo de Duque de Caixas, RJ) teve também uma mudança de comportamento brusca. A princípio, tudo estava ótimo; depois, quando ele não ganhou cargo, saiu batendo no governo. Nem Frei Betto, nem Morelli são fisiológicos, mas infelizmente caíram na armadilha da vaidade.

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