Igrejas alternativas e crentes moderninhos

Não se coloca tampouco vinho novo em odres velhos; do contrário, os odres se rompem, o vinho se derrama e os odres se perdem. Coloca-se, porém, o vinho novo em odres novos, e assim tanto um como outro se conservam (Mt 9:17).
A linguagem simbólica é de uma beleza exuberante, ao mesmo tempo que de uma agudeza que perfura as estruturas mais empedernidas. “Não se deve colocar vinho novo em odres velhos”. Esta metáfora carregada de ironia foi dita por Jesus em face ao vício jurídico dos fariseus. Familiarizados com a gramática da lei, os bons religiosos se serviam dela como recurso impermeabilizante que os protegia dos respingos da vida. Nessa figura imune da vida não se pode colocar a própria vida feita vinho.
Os desdobramentos dessa metáfora são inúmeros e potentes. Sem querer empobrecer a polissemia do texto, diria que o ponto central desse encontro tenso entre Jesus e os fariseus é a relação entre o espírito do evangelho, e as formas que pretendem recepcioná-lo e, às vezes, aprisioná-lo. “Não se deve colocar vinho novo em odre velho”. Será necessário ao odre relativizar-se em face da vitalidade do vinho, ele precisará se fazer novo.

Odres novos é o que o evangelho reclama.

Contudo, a novidade do odre deve ser relativa ao vinho novo, e não a qualquer outra substância. Odre novo para vinho novo. Um odre novo para o vinagre tem a mesma importância de uma embalagem qualquer que é descartada após o uso e, que permanece por centenas de anos estragando o meio ambiente. O que justifica, portanto, o odre se fazer novo é a potência de vida que o novo vinho oferece.
Vamos pousar essa discussão num exemplo que tem se tornado um fenômeno no universo evangélico: as igrejas alternativas. Por igrejas alternativas entendo as comunidades eclesiais com estética “moderninha”. Os templos são substituídos por teatros, garagens, bares; a arquitetura clássica dá lugar às decorações temáticas seguindo o gosto dos seguimentos para os quais os “moderninhos” se dirigem; o púlpito agora é o latão, a prancha, a mesinha de centro que quer dar um ar descontraído ao encontro. O pastor é um caso à parte: tatuado, de jeans, com vocabulário (supostamente) filosófico, inserido nas redes sociais, em suma: um cult moderninho.
Tudo isso poderia ser chamado de odre novo. É preciso, contudo, dar uma olhadinha no vinho contido em tal odre moderninho. Na conversa de Jesus com os fariseus, a questão é a inadequação de sua “cosmovisão” (expressão que os moderninhos adoram) com a dos distintos religiosos. A cosmovisão do mestre, daqui para a frente chamada de Reino de Deus, é inclusiva, enquanto a dos fariseus é exclusiva. Isso está colocado nos versos anteriores à metáfora do vinho e do odre:
Jesus tomou de novo a barca, passou o lago e veio para a sua cidade. Eis que lhe apresentaram um paralítico estendido numa padiola. 
Jesus, vendo a fé daquela gente, disse ao paralítico: "Meu filho, coragem! Teus pecados te são perdoados." Ouvindo isto, alguns escribas murmuraram entre si: "Este homem blasfema."
[...] Partindo dali, Jesus viu um homem chamado Mateus, que estava sentado no posto do pagamento das taxas. Disse-lhe: Segue-me. O homem levantou-se e o seguiu. 
Como Jesus estivesse à mesa na casa desse homem, numerosos publicanos e pecadores vieram e sentaram-se com ele e seus discípulos. 
Vendo isto, os fariseus disseram aos discípulos: "Por que come vosso mestre com os publicanos e com os pecadores?" Jesus, ouvindo isto, respondeu-lhes: "Não são os que estão bem que precisam de médico, mas sim os doentes. 
Ide e aprendei o que significam estas palavras: Eu quero a misericórdia e não o sacrifício {Os 6,6}. Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores" (Mateus 9:1-13)

O vinho novo é inclusivo.

O paralítico com sua padiola, o cobrador de impostos que se torna apóstolo, os numerosos publicanos e pecadores, estão todos incluídos no processo de vitalidade do vinho novo. O Reino tem uma mensagem: “Eu quero a misericórdia e não o sacrifício. Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores”. É para essa novidade que o odre é chamado à renovação.
O odre velho é excludente. Ele não tem mais capacidade de inclusão dado o compromisso que tem com sua forma atual. O que ele pode fazer é murmurar diante do acolhimento do paralítico, desconfiar sobre a conversão do coletor ao Reino, desqualificar a radicalidade da graça. O odre velho só consegue dizer: “Por que come vosso mestre com os publicanos e com os pecadores?”.
O problema das igrejas alternativas, com seu discurso cult e moderninho, é que os odres ganham uma nova cosmética (porque não dá sequer para dizer que é uma nova estética), mas em função de promover a continuidade do vinho velho que se tornou vinagre. Um encontro num teatro, uma decoração underground, uma pregação com vocabulário filosófico (filosofia holandesa, é verdade), frequentadores adornados com tatuagens, piercings e aquela roupa “da hora”. Aliás, aqui está a eficiência das estruturas religiosas: elas são boas de marketing.

Mas, e o conteúdo do que é exposto nesses ambientes moderninhos?

E a relação que eles mantêm com a cena pública? São inclusivos, ou só conseguem conviver com a diferença que cabe na escala de uma mesma cor? As igrejas alternativas, com sua cosmética moderninha, é marketing que dá um fôlego a mais às velhas estruturas que cooptam figuras descoladas para seduzir os jovens desviantes; seduzi-los, na verdade, para a mesma coisa cosmeticamente tratada.
Os moderninhos, representados por seus mentores cult, são homofóbicos, mas o fazem com argumentos do jus naturalismo; são machistas que encobrem suas contradições na nuvem de fumaça que se tornou a questão de gênero (chamado por eles de ideologia de gênero); são combatentes da ideologia esquerdopata que influencia certas teologias, mas deslizam para dentro do texto bíblico suas próprias convicções políticas dando-lhes força de revelação; são excludentes e não suportam a radicalidade da graça que diz “Eu quero a misericórdia”; não podem tolerar as consequências políticas, éticas, teológicas e pastorais do dito de Jesus: “Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores”.
Não se pode colocar vinho novo em odre velho. Mas também não se pode fabricar odres novos para acolher vinagre. O vinho novo nos tornará odres novos ou nos arrebentará, transbordando-nos rumo a novas formas de recebê-lo.
Alessandro Rodrigues Rocha é pastor batista, doutor em teologia sistemática pela PUC-Rio e escritor nas áreas de teologia e espiritualidade.   
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