Pinochet: exéquias reacionárias e carnaval progressista – texto de 2006

 

Bastará que nos imaginemos no lugar da morte para compreendermos a bondade de suas razões”.

José Saramago, in As Intermitências da Morte.

 

Com humor e ironia o ribatejano José Saramago brindou-nos recentemente com um romance sobre uma greve no mínimo inusitada, a greve da Morte.

No país imaginário do Nobel de Literatura português, a morte decide largar a foice, cruzar os braços e deixar de produzir óbitos. O livro começa e termina com a mesma frase: “no dia seguinte ninguém morreu”.

Para a alegria de alguns e tristeza de outros, o dia seguinte não foi sábado passado, o país imaginário não era o Chile e a ficção não se realizou. Um dos maiores ícones do maléfico grupo de ditadores militares da América Latina morreu devido a complicações cardíacas.

O facinoroso general Augusto Pinochet partiu – creio eu, e se a Graça de Jesus não atrapalhou – desta para pior no domingo, dia dez de dezembro de 2006. Com uma das mais nefastas governanças anti-lokianas contemporânea, Pinochet comandou por dezessete anos com garras de ferro a violação dos direitos humanos e civis de cidadãos chilenos e estrangeiros.

Como todo ditador ele soube violentar as liberdades civis e individuais de cidadãos, rasgou o contrato social do seu país e desconsiderou com terror todo o processo histórico de busca e luta por igualdade e equidade cidadãs. Os ditadores são pessoas que vivem para rasgar, queimar, calar ou ocultar qualquer pensamento ou expressão baseados nos direitos fundamentais da pessoa humana.

É triste constatar, mas pessoas de crueldade e truculência têm os seus admiradores e seguidores. Algumas pessoas são extrema e pragmaticamente gratas a Pinochet pela abertura econômica chilena, outras, para vergonha da nossa enquanto humanos e cidadãos, fazem coro com o – muito bem expulso – capitão Augusto Pinochet Molina em seu discurso indecoroso de apoio aos métodos do seu avô-herói.

Simultaneamente, multidões celebram a morte do tirano que foi sepultado sem honras de estado. Entre os celebrantes da morte do nada augusto militar presidente, estão os familiares e amigos que perderam os seus amados e fraternos, os sobreviventes que sofreram nos porões das ditaduras militares e os cidadãos defensores da vida e da liberdade que não querem ver essa história macabra se repetindo em nenhum lugar do mundo.

Penso que as palavras de Thomas Paine fazem muito sentido hoje, quando diz: “Estes são tempos que põem à prova a alma dos homens”, portanto, aproveitemos esse momento para não esquecermos de algumas coisas e refletirmos sobre outras. Não esqueçamos que sob os auspícios de governos democráticos dos Estados Unidos, Pinochet ascendeu ao poder e foi apoiado em seus atos desumanos. Precisamos trazer a público e responsabilizar de alguma forma todos os apoiadores e colaboradores desse sanguinário tirano.

A sociedade chilena deve permanecer alerta com os filhotes do ditador e da ditadura e prosseguir na luta por justiça para os cidadãos torturados, desaparecidos ou assassinados. Aos demais participantes da festarola do passamento de Pinochet, cabe parcimônia no júbilo ou no lamento pela causa mortis do ditador.

Urge entender que o “olho por olho e dente por dente” que alimenta a sanha humana por fogueiras inquisitórias, esquartejamentos, enforcamentos, decapitações, fuzilamentos, linchamentos, cadeiras elétricas e injeções letais, não precisou ser aplicado ao sanguinário tirano, pois em pleno dia internacional dos Direitos Humanos, o coração do homem sem coração não resistiu.

Eu não quero igualar-me a ele ou a qualquer assassino hediondo em hipótese alguma. Pessoas como Pinochet me faz lembrar do cruel Macbeth, o vilão shakespeariano. No último ato da Obra de Shakespeare, ao ser decapitado por Macduff, o executor exclama: “A Pátria é livre!”, e como ensina muito bem Harold Bloom, todos fecham o livro ou saem do teatro com dúvidas sobre essa liberdade proclamada.

Penso que jamais escaparemos do Pinochet que há potencialmente em todos nós enquanto pessoas e sociedade, por isso o estado de alerta permanente é indispensável. Finalmente, quanto ao fato específico do General tem morrido sem ser julgado por seus crimes, eu que sou socialista, ativista dos direitos humanos e, acima de tudo seguidor de Cristo, eu não tenho dúvidas que Augusto Pinochet não escapará do mais severo, justo e merecido julgamento que uma pessoa pode ter.


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