Uma História de Natal – O meu natal teve “uva passa”.

 

Curto o agridoce, essa sucessão de sabores na boca que vem do salgado ao ácido e do amargo ao doce, mas devo confessar que alguns sabores amargos, sem doce algum, são os meus preferidos.

De 1993 a 2000, experimentei uma sucessão de sabores em minha vida pós solteiro, degustei os bons salgados seguidos de deliciosos ácidos e amargos, terminando sempre pelo doce, pela doçura. Que tempo lindo…

Eu realmente acreditei – quem nunca acreditou – que poderíamos manter a tendência dos primeiros imperfeitos e ingênuos sete anos, erramos muito não cuidando da cozinha e dos outros cômodos com seus sabores e perfumes, aqueles ambientes do lar que um dia sonhamos quando “o sim” parecia eterno.

Depois de usar muito alimento com validade vencida e errar nos sais, açúcares e óleos, o pesadelo foi se hospedando aos poucos. Em nossa história de vida a dois o despejo sorrateiro do sonho da mesa, da casa e do lar se consolidou com a profanação do sagrado sonho gourmet, onde os pratos simples e requintados deveriam ser elaborados sob as orientações da experiente Santa Providência, sempre hábil em usar o salgado com o ácido e o amargo da vida, terminando sempre pelo doce, pela doçura. Ah.., triste daqueles que olvidam o Eterno com as suas utopias, suas santas e necessárias utopias de Supremo Master Chef das benditas mesas.

Houve muita doçura nesses muitos erros amargos, sempre haverá doçura para quem pacientemente se acostumar com o amargo da vida como ela é. Somos fontes de amargor que a graça de Jesus de Nazaré veio adoçar.

Em Jesus de Nazaré toda Mara vira Graça.

De 2000 a 2003 nós erramos a maioria das receitas –  grande maioria das receitas – e, apesar de nos enfiarmos num buraco quase impenetrável, não faltou quem nos abandonasse nesse tempo, os poucos cozinheiros que tentaram salvar a nossa mesa e cozinha, falharam, simplesmente não conseguiram, apesar das maravilhosas intenções.

Imaginem uma casa bombardeada e completamente destruída e exposta, imaginou? Isso, é bom imaginar bem antes de insinuar um julgamento sobre a nossa história e o nosso fracasso como cozinheiros. Pouca gente – pouquíssima gente – continuaria vivendo como família e tentando cozinhar decentemente sob escombros como os nossos…

De 2004 a 2015 nós lutamos e conseguimos sobreviver ancorados numa comunidade, recuperando uma casa, uma mesa e um lar com o bom e verdadeiro agridoce, o humano agridoce da vida como ela é…, cheio de erros, é sempre bom confessar isso…

De 2015 a 2017 a resistencia da casa, mesa e lar caiu vertiginosamente e as bactérias oportunistas se aproveitaram e contaminaram a luta e a resistência… Salvo melhor juízo, entendo que dois anos de um distanciamento da comunidade, um ano no afastamento do lar, cozinha e quarto foram fatais. Pronto, creio que isso foi o suficiente para fechar a nossa triste e última receita.

Momentos de “Tristes Receitas” são preciosos para revelar três tipos de pessoas: Os Confiáveis, os Nada Confiáveis e os Desconfiáveis. Os Desconfiáveis são os bipolares que insistem em mandar sinais e mensagens incoerentes e contraditórias, os Nada Confiáveis são os previsíveis apequenados que revelam as “almas de rapina” que sempre foram, os Confiáveis, bem, por esses nós morremos e nos sacrificamos.

Termino o Dezembro de 2017 sorrindo e chorando, com a bendita mistura de sabores na alma e na existência de todos os salgados, ácidos, amargos e doces.

Espero por novas receitas onde o novo agridoce seja a base de todos os pratos da nova mesa onde a minha e as novas famílias do meu coração-lar possam comungar o partir do pão do amor, do acolhimento e do respeito a todos e todas sem ninguém ficar de fora, bem do jeito que Jesus de Nazaré me ensina na Jornada da Vida como ela é.

 

 

 

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